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Crédito Rural cai 20,2% e custo da soja supera R$ 5 mil por hectare

Estudo da Aprosoja/MS aponta retração nos financiamentos, aumento do endividamento e desafios para custear a safra 2026/2027
15/10/2026 - 10:30

O acesso ao Crédito Rural se tornou um dos principais desafios para o financiamento da produção agrícola em Mato Grosso do Sul. Na safra 2025/2026, as contratações somaram R$ 14,9 bilhões, queda de 20,2% em relação ao ciclo anterior. Ao mesmo tempo, o custo para produzir soja ultrapassa R$ 5 mil por hectare e aumenta a parcela de operações de crédito com dificuldades de pagamento.

Os dados fazem parte do Informativo Econômico 16/2026, elaborado pela Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS), que analisa a retração do crédito rural, o endividamento dos produtores e as condições de financiamento para a safra 2026/2027.

Segundo o levantamento, o volume contratado no estado ficou 38,4% abaixo do pico registrado na safra 2023/2024. A redução também aparece no início do novo ciclo: entre julho e setembro de 2026, foram contratados R$ 3,1 bilhões, recuo de 29% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

“Os dados mostram que a dificuldade do produtor rural vai além da redução no volume de crédito contratado. Temos custos de produção elevados, juros que encarecem o financiamento e instituições financeiras mais criteriosas na concessão dos recursos. Esse conjunto de fatores exige atenção ao planejamento financeiro e às condições necessárias para conduzir a safra”, avalia o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes.

A retração do crédito atingiu especialmente as operações de custeio agrícola, utilizadas para financiar despesas como fertilizantes, defensivos, sementes e outros insumos necessários à produção.

Em Mato Grosso do Sul, o volume destinado ao custeio caiu de R$ 10,8 bilhões na safra 2022/2023 para R$ 5,6 bilhões em 2025/2026. No financiamento específico da soja, as contratações recuaram de R$ 6,4 bilhões em 2023/2024 para R$ 3,4 bilhões em 2025/2026.

A área de soja financiada por essas operações também diminuiu, passando de 1,54 milhão para 710 mil hectares em dois anos. Na safra 2025/2026, o crédito de custeio cobriu aproximadamente 15% da área cultivada com a oleaginosa.

Além da disponibilidade de recursos, o custo dos empréstimos também pesa. A taxa média ponderada das operações de custeio contratadas em Mato Grosso do Sul chegou a 12,1% ao ano em 2025/2026, acima da média nacional, de 10,5%.

A necessidade de financiamento aumenta diante dos custos da safra. Segundo o levantamento da Aprosoja/MS, produzir um hectare de soja em Mato Grosso do Sul na temporada 2026/2027 custa R$ 5.024,82.

Desse total, R$ 3.078,63 correspondem a fertilizantes, defensivos agrícolas e sementes. Considerando a área estimada de 4,874 milhões de hectares, a necessidade de capital para cobrir o custo total da produção de soja no estado chega a aproximadamente R$ 24,5 bilhões. Somente para a aquisição de insumos, a estimativa é de R$ 15 bilhões.

Na safra anterior, o crédito rural contratado para o custeio da soja correspondeu a apenas 13,7% do custo total estimado para a cultura na nova temporada, segundo a comparação apresentada no informativo.

A diferença precisa ser coberta por recursos próprios, Cédulas de Produto Rural (CPR), operações de troca por insumos e crédito concedido por fornecedores. Embora essas alternativas contribuam para viabilizar a produção, podem envolver prazos menores e custos financeiros mais elevados.

“O financiamento precisa acompanhar as necessidades da atividade, porque o produtor depende desses recursos para adquirir insumos e manter as operações”.

Endividamento e inadimplência

A redução do crédito ocorre em paralelo ao aumento das dificuldades financeiras no campo. Dados do Banco Central reunidos no estudo apontam que, em agosto de 2026, Mato Grosso do Sul tinha R$ 47,2 bilhões em saldo de crédito rural. Desse total, R$ 12,8 bilhões, equivalentes a 27,1%, estavam classificados como carteira problemática.

O indicador inclui operações renegociadas, prorrogadas, inadimplentes ou em atraso. Em dezembro de 2022, essa parcela representava 2,5% da carteira estadual.

Outro dado que chama a atenção é o avanço dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio. Conforme números da Serasa Experian citados no informativo, Mato Grosso do Sul registrou 216 pedidos em 2025, aumento de 118% em relação ao ano anterior. O estado ficou na quarta posição nacional.

No primeiro trimestre de 2026, foram contabilizados 38 pedidos, aumento de 52% na comparação com o mesmo período de 2025.

O aumento das dificuldades de pagamento também influencia as condições de contratação de novos financiamentos. Com maior percepção de risco, as instituições financeiras podem exigir garantias adicionais, reduzir limites de crédito e concentrar a oferta em clientes com histórico de pagamento e garantias patrimoniais.

Plano Safra 

O estudo da Aprosoja/MS também analisa o Plano Safra 2026/2027. O orçamento anunciado para a agricultura empresarial chegou a R$ 525,1 bilhões, aumento nominal de 1,7% em relação ao ciclo anterior. Descontada a inflação, porém, o levantamento estima uma redução real de 2,4%.

Outro ponto destacado é a diminuição dos recursos destinados ao custeio e à comercialização, que passaram de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões, queda nominal de 7,2%. Já os recursos para investimento aumentaram, mas atendem a finalidades diferentes das despesas necessárias à implantação e à condução das lavouras.

Para a Aprosoja/MS, o desafio do produtor é conciliar a reorganização das dívidas existentes com a disponibilidade de recursos para a continuidade da produção. O diagnóstico apresentado no informativo busca contribuir para o debate sobre as condições de financiamento e para a construção de medidas que atendam às necessidades do produtor sul-mato-grossense.

 

Texto: Crislaine Oliveira (Comunicação Aprosoja/MS)
Foto: Aprosoja/MS